[Para Além da Superfície] #46: Museu dos Fracassos
Parte 1 de ???
(Se preferir, você pode OUVIR essa edição)
Fernando Pessoa em “O Livro do Desassossego” diz:
“Choro sobre as minhas páginas imperfeitas, mas os vindouros, se as lerem, sentirão mais com o meu choro do que sentiriam com a perfeição, se eu a conseguisse, que me privaria de chorar e portanto até de escrever.
O perfeito não se manifesta (…)”
“Perfeccionismo” é só um nome pomposo para “Medo de Errar”. Medo de revelar o que existe de você dentro do seu erro.
Na perfeição, eu não consigo ver nada. Não vejo quem você é, não vejo como ou o quê você sente. Só vejo algo pronto, feito. Do jeito que uma máquina conseguiria fazer.
É justamente através do seu erro que eu consigo uma pequena brecha pra poder te ver de verdade.
É no erro que eu consigo ver a sua humanidade. E é nessa humanidade que eu consigo me conectar com você.
Todo mundo expõe seus casos de sucesso e suas grandes alegrias. Mas e os fracassos?
Aqueles que ecoam sussurrantes na nossa mente e tentam nos convencer, dia após dia, de que somos nós o próprio fracasso.
Queria juntar em um só texto o grande museu de fracassos da minha história. Mas, ao invés disso, prefiro ir um por um.
Conforme eu lembrar, conforme eles quiserem sair.
Não sei, sinto que escrever sobre eles pode me ajudar a libertá-los.
Todo esse texto começou quando eu tava scrollando o instagram e vi um vídeo de “como fazer um vision board que realmente funciona”.
Automaticamente me veio um ressentimento, uma frustração. Quis gritar “isso não funciona!!! A única vez que eu tentei não rolou. Pra que vou gastar meu tempo com isso???”
então, abri o substack e fui investigar o porquê desse sentimento….
2017: A faculdade dos Sonhos
No Ensino Médio eu coloquei na cabeça que queria porque queria estudar fora do Brasil. Nos Estados Unidos, para ser mais específica.
Tinha feito um curso extracurricular de empreendedorismo no segundo ano do colegial e foi isso que decidiu minha graduação: “Business” (porque, na minha cabeça, era uma coisa completamente diferente de apenas “administração” kkkkkkk)
Babson College: o nome da faculdade que fazia meus olhos brilharem.
Não sei nem dizer direito o porquê. Era a faculdade número 1 do mundo em empreendedorismo. Mas acho que isso era tudo o que eu sabia.
E era aquelas coisas que eu queria TANTO, mas TANTO, que eu chorava só de pensar (mas não sei se todo mundo é assim kkkkkkk).
Queria TANTO que imprimi uma foto da faculdade e colei na cabeceira da minha cama, pra todos os dias eu ir dormir e acordar pensando nela…
O “Vestibular” Americano é bem diferente do brasileiro. Lá, além da prova qualificatória (o SAT ou ACT, que seria como o nosso ENEM), você também precisa mostrar ter boas notas no colégio, ter extracurriculares interessantes e escrever VÁRIOS textos sobre você ao se aplicar.
Sempre tem um texto padrão que você manda para todas as faculdades (o seu “Personal Statement”) e alguns outros textos que cada faculdade em particular pode pedir. Para a Babson, eram esses:
Why are you interested in Babson College? (200 word maximum)
Life is a collection of moments, some random, some significant. Right now, you are applying to Babson College. What moment led you here?
Para essa pergunta específica poderia ser um texto de 500 palavras ou um vídeo. E eu, querendo mostrar todo meu esforço e interesse, obviamente escolhi o vídeo.
Fiz o roteiro. Chamei meu melhor amigo e fomos pra rua gravar.

Na época eu não sabia editar, então, com a ajuda de mais um amigo, saiu esse vídeo aqui:
Hoje eu tenho um pouco de vergonha desse vídeo, confesso. Mas, em 2017 (!!!!!), foi o melhor que eu consegui fazer.
Eu achei o máximo, e todos ao meu redor também!
Enviei a aplicação e esperei.
Em janeiro, fiz a entrevista com a faculdade, mas confesso que não tenho memória ALGUMA desse dia. Fiz umas 3 entrevistas presenciais e lembro que, em uma delas, eu tinha acabado de voltar da praia e tava com INSOLAÇÃO kkkkkkkkk roupa social e a pele vermelha queimando.
(Tem que querer demais!!! kkkkkkkkkkkkkk ainda bem que eu queria
Mas eu lembro até hoje do dia que recebi o feedback da Babson.
As listas das faculdades brasileiras geralmente saem no começo do ano, entre fevereiro e março, mas as dos Estados Unidos geralmente demoram mais um pouco.
Eu já tinha passado em outras duas faculdades nos EUA. Uma até com uma certa bolsa de estudos, mas nem perto do suficiente que eu precisava para, de fato, ir estudar lá. (que era exatamente 100% rsss)
Já tinha passado na USP, e era lá que eu estava estudando.
Era um dia de Happy Hour dos bixos, lá pras onze da noite, eu tava esperando o ônibus para sair da cidade universitária junto com esse mesmo amigo que editou o vídeo e recebi o e-mail.
Reprovada.
Não fui nem colocada na lista de espera.
Fui simplesmente reprovada.
Coisa difícil de ouvir ler pra menininha que só tirava 10 na escola. Pra adolescente que fez prova TODOS os dias durante 3 anos e só ficou de recuperação uma única vez. Pra menina que passou em todos os vestibulares do Brasil mas não passou no ÚNICO, no que mais importava.
E a sensação que ficou foi “de que adianta tudo isso se eu não consegui o que eu mais queria? o que eu queria DE VERDADE, com todo o meu coração?”
É a primeira vez que eu lembro de ter sentido uma sensação de fracasso. Um “Eu FRACASSEI", de verdade.
~rebaixei meu snapchat para ver os vídeos dessa época e percebi que a Adriely de 17 anos ficou sim triste, mas passou por cima disso muito rápido~
Na verdade eu recebi o e-mail bêbada pós rolê, tirei sarro disso e nunca mais falei sobre.
Acho que foi exatamente por não ter falado sobre que isso ta aqui comigo até hoje, né?
A reação de todos ao meu redor foi a de “COMO você pode reclamar?? Beleza, você não passou fora, mas você ta na USP! É o sonho de TANTA gente! Você TEM que ficar feliz!” - e eu realmente tentei internalizar isso…
Não sabia que dava pra ficar frustrada e grata ao mesmo tempo, não sabia que eu podia me sentir assim. Então, ficava tentando esconder o primeiro e fingindo que ele não existia.
Fingir que não, que eu não tava triste por ter dado tudo de mim e não conseguido.
“Além de tudo, eu só passei na FUVEST porque eu não queria tanto assim, porque não era minha prioridade. Se fosse minha primeira opção eu teria ficado MUITO nervosa no dia e também não teria passado” - Essa era a verdade que ficava ecoando na minha cabeça.
“Eu só consegui porque eu nem queria tanto assim, se não eu tinha estragado tudo isso também.”
“Eu estrago o que eu quero de verdade” - essa é a crença. Percebo agora, enquanto escrevo. “É melhor eu já colocar o meu pé no chão e aceitar que eu vou ter a segunda melhor coisa.”
Foi tudo isso que a Adriely de 17 anos internalizou de verdade.
A verdade é que, até hoje, eu tenho medo de querer TANTO de novo, e de dar tudo de mim e, ainda assim, não conseguir.
Fiquei com medo de sonhar alto demais.
Mesmo sabendo que depois disso eu alcancei outros sonhos ainda maiores. Mesmo sabendo que meu caminho foi exatamente do jeito que tinha que ser (e que eu provavelmente odiaria ter perdido uma vida universitária brasileira por uma americana kkkkkk)
O medo de não conseguir o que eu mais quero me faz focar na segunda opção. Que, honestamente, também é boa (e na visão de muita gente é a melhor opção possível) .
O medo de sonhar alto demais faz com que eu me contentasse com o que é bom “o suficiente”: “O que eu mais quero muito provavelmente eu não vou conseguir, mas a segunda melhor coisa dá, né?”
E escrevendo esse texto percebi que eu não sonho com o melhor cenário possível há muuuuuito tempo.
Eu sempre racionalizo pra poder me contentar com o que eu ~acho que ~vou conseguir de verdade.
Eu quis TANTO que, quando eu vejo que eu não consegui, eu sinto que eu gastei energia à toa: “Pra quê que eu vou querer algo TANTO assim? Pra quê eu vou gastar tanta energia em uma coisa?”
Mas eu não gastei, né?
A gente nunca sabe qual vai ser o retorno do esforço que a gente coloca nas coisas. A gente só tem fé de que, no fim, vai compensar.
FÉ.
Acho que é isso que sobrava na Adriely de 17 anos.
Hoje, olhando para trás, eu vejo uma menina muito sonhadora, que deu o máximo de si por algo que queria. E que não fazia ideia do que tava fazendo - mas que batia o pé dizendo que tinha certeza que sabia!
(Queria ser 10% dessa menina que um dia eu fui.
Eu sabia que nem tinha como meus pais pagarem aquela faculdade fora. Mas eu tinha uma fé IMENSA de que a gente daria um jeito. De que eu conseguiria uma bolsa ~ou várias~. Que se eu conseguisse passar, ia ter uma forma de ir.
TINHA que ter.
E nenhum esforço é em vão.
Depois de não fazer a faculdade que eu tanto queria nos EUA, eu decidi que conseguiria fazer um intercâmbio pela faculdade.
De novo, fé.
Fé e muito trabalho. Pesquisas que eu fiz desde o dia que eu entrei na USP até o dia em que eu tava, de fato, embarcando para a Holanda, no fim de 2021.
E aquele conhecimento que eu adquiri prestando o “vestibular” norte americano? Tive que refazer o TOEFL pro intercâmbio - e não precisei estudar nem metade do que eu tinha estudado na primeira vez.
Também teve todos aqueles textos que eu fiz sobre mim mesma e… Bom, eu tô aqui hoje, não tô?
O que eu vi por muito tempo como fracasso, na verdade foi um BAITA de um redirecionamento na minha vida.
Eu não gosto nem de imaginar quem eu seria se realmente tivesse me formado em EMPREENDEDORISMO nos ESTADOS UNIDOS kkkkkkk (brincadeira, podiam ser vários outros caminhos né kkkkkkkkkkkkkkkk
ou todos poderiam me levar pra alguém parecida com quem eu sou hoje…
A gente nunca vai saber…)
Em um episódio de “Para dar Nome às coisas” a Nath fala que a nossa vida também é o que não acontece. Os encontros que nunca aconteceram, os empregos que a gente nunca conseguiu.
A vida, no fim, também é aquilo que nos escapa.
Se eu tivesse realizado esse “maior sonho da minha vida”, eu teria perdido 5 anos da experiência universitária brasileira (falo, de novo, porque eu fui da BATERIA!!! O tanto de rolê sujeira, caos, diversão que eu perderia… simplesmente INCONCEBÍVEL). Eu não teria começado a trabalhar no primeiro semestre, já tendo contato com o mercado na faculdade. Eu não teria conhecido as pessoas que eu conheci. Eu não teria feito meu intercâmbio pra Holanda. Eu provavelmente teria que voltar em 2020 por causa da Pandemia e eu provavelmente teria falido a minha família kkkkk
Isso tudo é uma história que eu conto sim em voz alta.
Mas que escrever faz, finalmente, sair de verdade.
Talvez agora eu acredite um pouco mais que realmente foi um redirecionamento. Talvez agora eu aceite isso de uma forma diferente.
Gostei dessa ideia de listar fracassos…
✨Minhas Aleatoriedades da Semana
Existe um Museu dos Fracassos REAL, com produtos e serviços que simplesmente deram errado no mundo todo. Genial! https://museumoffailure.com/
Eu meio que amei essa ideia aqui kkkkkkkk Lindo rir dos próprios fracassos!!!!
Mais indicações aleatórias (livros, álbuns, podcasts) nesse post aqui:
🤝 Troca comigo?
E você? Qual fracasso você ta precisando deixar ir pra começar a viver de forma mais leve? (ou com mais potência)








Que delícia te ler e ouvir!
Muito bem escrito. Que orgulho!